Epilepsia em cachorro: sinais, gatilhos e o que fazer

Quando um cachorro tem uma convulsão, o tutor costuma se assustar com a perda de consciência, os movimentos involuntários e a salivação excessiva. A epilepsia em cachorro é um distúrbio neurológico caracterizado por crises recorrentes e imprevisíveis, afetando cerca de 0,6% a 0,75% dos cães, segundo estudos. Por isso, reconhecer os sinais, entender os gatilhos e saber como agir durante uma crise é essencial para proteger a saúde e a vida do animal.
As crises epilépticas acontecem quando o cérebro do cachorro sofre descargas elétricas anormais, que resultam em movimentos involuntários, perda momentânea de consciência e mudanças de comportamento. Do ponto de vista veterinário, considera-se epilepsia quando o cão apresenta crises repetidas sem causa aparente imediata. O quadro pode trazer complicações graves, incluindo risco de óbito, o que torna essencial buscar sempre apoio profissional. Com a colaboração da médica-veterinária Nathalia Martins (CRMV-SP 39844), este artigo apresenta um guia prático sobre como identificar, agir e prevenir crises epilépticas em cães.
Quais são os sinais de uma crise epiléptica em cães?
Os sintomas da epilepsia em cães podem variar bastante em intensidade e forma de apresentação. Segundo a médica-veterinária Nathalia Martins (CRMV-SP 39844), “haverá sinais bem claros, como a perda de consciência, o animal não consegue ficar em pé e normalmente cai de lado.” A especialista ainda destaca que durante uma crise, também podem ser observados salivação excessiva (às vezes com espuma), movimentos involuntários das patas, rigidez muscular e, em alguns casos, perda do controle urinário ou intestinal.
Além das convulsões generalizadas, existem as focais, que atingem apenas uma parte do cérebro. Os sinais são mais sutis: comportamento de “caçar moscas imaginárias”, medo repentino e desorientação. Por exemplo, o cão pode abocanhar o ar como se estivesse perseguindo insetos invisíveis, lamber os lábios repetidamente ou apresentar tremores em apenas uma região do corpo. Essas manifestações costumam durar poucos segundos, mas podem evoluir para uma crise generalizada.
Após a crise, os cães costumam entrar na fase chamada pós-ictal, caracterizada por desorientação, sonolência, sede excessiva e, em alguns casos, apetite aumentado. Esse período pode durar de alguns minutos a várias horas. Durante essa fase, o animal pode parecer confuso, andar sem rumo, esbarrar em móveis ou demonstrar sensibilidade à luz e ao som. Portanto, é importante manter o ambiente calmo e permitir que o pet descanse até se recuperar completamente.
É possível prever quando o cachorro terá uma crise?
Muitos tutores se perguntam se é possível prever quando o cachorro terá uma crise epiléptica. A Dra. Nathalia explica que sim: “Existe um período chamado pré-ictal, que pode ocorrer minutos ou horas antes da convulsão. Durante esse período, alguns cães demonstram ansiedade, salivação sem motivo aparente e tremores faciais, o que pode servir como alerta para os tutores.” Além disso, outros sinais podem incluir inquietação, busca por contato com o tutor, choramingos ou tentativas de se esconder.
Nem todos os cães apresentam essa fase de alerta, mas quando ela ocorre, pode ser uma ferramenta valiosa para evitar acidentes. Por exemplo, se o tutor perceber que o animal está mais agitado ou com tremores faciais, pode colocá-lo em um local seguro, longe de escadas ou objetos pontiagudos. Dessa forma, é possível reduzir o risco de traumas durante a crise. No entanto, é fundamental lembrar que cada animal é único, e a observação atenta do comportamento é a melhor forma de identificar padrões individuais.

O que fazer durante uma crise epiléptica?
Assistir a uma crise epiléptica é desesperador, mas manter a calma é essencial para proteger o animal. Durante a convulsão, o cão não tem consciência do que está acontecendo e seus movimentos são totalmente involuntários. A médica-veterinária Nathalia Martins detalha os principais cuidados: afaste objetos que possam machucar o pet, coloque o animal de lado em uma superfície segura e acolchoada, e não coloque as mãos ou objetos na boca dele.
Existe uma crença de que a língua do animal se enrola e pode asfixiá-lo, mas isso não é verdade. Portanto, tentar puxar a língua ou colocar algo entre os dentes pode resultar em mordidas acidentais e ferimentos graves. Além disso, é importante registrar a duração da crise. Se ela ultrapassar três minutos ou se ocorrerem várias crises no mesmo dia, procure atendimento veterinário imediato. Essas medidas simples ajudam a evitar traumas e permitem que o tutor ofereça a segurança necessária até o atendimento veterinário.
Quais são as causas e gatilhos da epilepsia canina?
A epilepsia em cães pode ter causas genéticas, neurológicas, metabólicas ou estar associada a intoxicações. Em alguns casos, está ligada a doenças de base, como cinomose, diabetes, insuficiência renal ou hepática, e a situações de hipertermia. A condição pode ser classificada em três tipos: epilepsia idiopática, a mais comum, associada a fatores genéticos e sem causa definida; epilepsia sintomática, secundária a doenças de base, como tumores, traumatismos ou infecções; e epilepsia provavelmente sintomática (ou criptogênica), quando há forte suspeita de lesão cerebral, mas sem confirmação nos exames.
Além das doenças de base, alguns fatores também podem funcionar como gatilhos que aumentam a chance de crises convulsivas em cães predispostos: hipoglicemia (queda de açúcar no sangue), hipertermia (exposição ao calor intenso ou febre alta) e intoxicações por medicamentos, plantas ou substâncias químicas. É importante destacar que nem toda convulsão significa epilepsia. Existem as chamadas crises reativas, provocadas por distúrbios metabólicos ou tóxicos, que desaparecem após o controle da causa.
O diagnóstico de epilepsia é confirmado apenas quando as crises se tornam recorrentes e imprevisíveis, após exclusão de outras causas.
A epilepsia pode afetar cães de qualquer idade ou raça, mas alguns grupos apresentam maior probabilidade. Segundo estudo da Cornell University College of Veterinary Medicine, a condição é mais comum em cães de raça pura, como Beagle, Bernese Mountain Dog, Border Collie, Boxer, Cocker Spaniel, Labrador Retriever e Golden Retriever, embora a predisposição varie entre as raças. O artigo também sugere que os machos podem ser ligeiramente mais predispostos do que as fêmeas.
Além disso, outros fatores de risco foram identificados, como idade (as primeiras crises costumam surgir entre 1 e 5 anos), histórico familiar, doenças pré-existentes (cinomose, problemas renais, hepáticos ou tumores cerebrais) e fatores ambientais (calor extremo, intoxicações e estresse).
A veterinária Nathalia Martins destaca que, independentemente da raça ou idade, convulsões nunca devem ser encaradas como normais: “Um animal saudável não convulsiona. Qualquer episódio já é um sinal de alerta e precisa ser investigado pelo veterinário.” Portanto, ao presenciar qualquer tipo de crise, mesmo que breve, o tutor deve buscar avaliação profissional para investigar a causa e iniciar o manejo adequado.

Quando procurar um veterinário?
Qualquer convulsão já exige avaliação veterinária. Isso porque um animal saudável não convulsiona, e a repetição dos episódios reforça a necessidade de uma investigação completa, de preferência com neurologista veterinário em casos complexos. O diagnóstico da epilepsia em cães é considerado de exclusão, ou seja, o veterinário precisa descartar outras doenças capazes de causar convulsões antes de confirmar o quadro epiléptico. ” Não existe um exame único que confirme a epilepsia. O que fazemos é uma investigação completa, com exames de sangue, urina e imagem, para descartar outras causas possíveis.
Só então chegamos ao diagnóstico de epilepsia idiopática, que é de causa desconhecida”, explica a veterinária Nathalia Martins.
Entre os exames mais usados no diagnóstico estão: exames laboratoriais (sangue e urina) para identificar alterações metabólicas como diabetes, insuficiência renal, hepática ou doenças infecciosas; exames de imagem (tomografia e ressonância magnética) para avaliar tumores, traumas ou alterações estruturais no cérebro; análise do histórico clínico; avaliação neurológica especializada; e eletroencefalografia (EEG), menos comum na rotina, mas útil para confirmar atividade epiléptica e identificar o foco da descarga elétrica cerebral. Além dos exames, o relato do tutor é peça-chave:
questionários detalhados sobre histórico de saúde, vacinação, alimentação e comportamento antes, durante e após a crise ajudam o veterinário a diferenciar corretamente o problema.
O exame neurológico realizado no período interictal (entre crises) também é essencial, pois permite identificar déficits persistentes que indiquem lesões estruturais no cérebro, reforçando ou afastando a hipótese de epilepsia. Em resumo, o diagnóstico só é confirmado quando o cão apresenta crises recorrentes e imprevisíveis, sem que exames apontem uma doença de base como causa.
A urgência é ainda maior se houver duas ou mais crises seguidas em poucos minutos, se o cão não recuperar a consciência entre os episódios, ou se a crise durar mais de 5 minutos — quadro conhecido como status epilepticus, uma emergência médica grave com risco de morte.
Perguntas Frequentes
Os sinais incluem perda de consciência, queda lateral, salivação excessiva (às vezes com espuma), movimentos involuntários das patas, rigidez muscular e, em alguns casos, perda do controle urinário ou intestinal. Crises focais podem se manifestar como comportamento de ‘caçar moscas imaginárias’, medo repentino ou desorientação.
Mantenha a calma, afaste objetos que possam machucar o pet, coloque o animal de lado em uma superfície segura e acolchoada, e não coloque as mãos ou objetos na boca dele. Registre a duração da crise e procure atendimento veterinário imediato se ultrapassar três minutos ou se ocorrerem várias crises no mesmo dia.
A epilepsia pode ter causas genéticas (idiopática), neurológicas (sintomática, como tumores ou traumatismos) ou metabólicas (como diabetes ou insuficiência renal). Fatores como hipoglicemia, hipertermia e intoxicações podem funcionar como gatilhos para crises em cães predispostos.
Conclusão
A epilepsia em cachorro é uma condição crônica que exige atenção contínua e compreensão do tutor para que cada episódio seja interpretado com segurança. Reconhecer os sinais de alerta, como perda de consciência, salivação excessiva e movimentos involuntários, permite agir rapidamente para proteger o animal. Além disso, conhecer os gatilhos — como hipoglicemia, hipertermia e intoxicações — ajuda a reduzir a frequência das crises em cães predispostos.
Durante uma crise, manter a calma, afastar objetos perigosos e colocar o cão de lado são atitudes que evitam traumas. Jamais se deve colocar a mão na boca do animal ou tentar conter os movimentos. Após o episódio, é fundamental buscar avaliação veterinária para investigar a causa e iniciar o tratamento adequado, que pode incluir medicamentos anticonvulsivantes e ajustes na rotina.
Com acompanhamento profissional regular e cuidados diários, muitos cães epilépticos conseguem manter boa qualidade de vida. O papel do tutor é observar, registrar e seguir as orientações do veterinário, garantindo que o pet receba o suporte necessário para viver com segurança e bem-estar.