Sinais, diagnóstico e tratamento da leishmaniose canina

A leishmaniose canina é uma doença infecciosa grave, porém não contagiosa, causada por protozoários do gênero Leishmania.
Sua transmissão ocorre exclusivamente pela picada da fêmea do mosquito-palha infectado. Por ser uma zoonose, afeta cães e pode ser fatal para os animais e, em menor escala, para humanos.
Presente em 89 países, incluindo o Brasil, a condição pode permanecer silenciosa por meses ou até anos, exigindo atenção redobrada dos tutores para diagnóstico precoce e manejo adequado.
O que é a leishmaniose canina?
A leishmaniose canina, também conhecida como calazar ou febre dundun, é uma enfermidade infecciosa zoonótica e endêmica em mais de 89 nações.
No Brasil, os principais agentes causadores são as espécies Leishmania infantum e Leishmania braziliensis, parasitas intracelulares obrigatórios que se alojam nas células do sistema fagocítico mononuclear dos hospedeiros vertebrados.
A Leishmania spp. é um parasita difásico, alternando entre a forma promastigota (no tubo digestivo do mosquito vetor) e amastigota (no tecido do hospedeiro).
Essa característica permite a multiplicação tanto no inseto quanto no cão, causando desde infecções assintomáticas até quadros graves.
Por ser uma zoonose, a leishmaniose representa um problema de saúde pública e ocupa o 6º lugar na lista de doenças infectoparasitárias da Organização Mundial da Saúde.
Dessa forma, o conceito de saúde única ganha força, integrando as saúdes animal, humana e ambiental para combater a disseminação.
O Brasil está entre os quatro países com maior número de casos, respondendo por 14% dos casos globais e 97% dos registros nas Américas.
A doença está presente em todo território nacional, mas as regiões Nordeste, Sudeste e Centro-Oeste concentram a maior parte dos registros, reflexo da urbanização que, a partir dos anos 90, espalhou a enfermidade das áreas rurais nordestinas para outros locais.
Como se dá a transmissão?
O papel do mosquito-palha
A transmissão ocorre exclusivamente pela picada da fêmea do mosquito-palha (Lutzomyia spp.). Inicialmente, o inseto pica um animal infectado e ingere as formas amastigotas do parasita.
Dentro do tubo digestivo do mosquito, esses protozoários se multiplicam e se transformam em promastigotas, a forma infectante.
Quando a fêmea pica um novo cão ou outro hospedeiro, ela inocula as promastigotas na pele, iniciando um novo ciclo.
O que acontece no organismo do cão?
Dentro do organismo do cão, os parasitas invadem rapidamente os macrófagos – células de defesa do sistema imunológico – e começam a se multiplicar. Consequentemente, o sistema imune vai sendo comprometido de forma gradual.
Transmissão venérea e reservatório
Pesquisas já comprovaram a presença do protozoário Leishmania no sistema reprodutivo de animais infectados, tanto machos quanto fêmeas.
Portanto, a transmissão venérea entre cães é uma possibilidade documentada, embora menos frequente. Outro ponto crítico é que o cão infectado é considerado o principal reservatório urbano do parasita. Mesmo animais sem sintomas aparentes podem servir como fonte de infecção para o mosquito-palha, perpetuando o ciclo.
O período de incubação da doença é extremamente variável: de alguns meses a vários anos. Assim, um cão pode estar infectado e transmitindo a doença por muito tempo antes de qualquer suspeita clínica.
Formas clínicas: visceral e cutânea
Existem duas formas principais de leishmaniose canina: a visceral e a cutânea.
Leishmaniose visceral
A forma visceral é a mais grave e ataca órgãos internos como fígado, baço, medula óssea e linfonodos. Nessa apresentação, os parasitos se espalham e infectam órgãos distantes, comprometendo funções vitais. Sem tratamento, essa forma pode levar à morte em até 90% dos casos não tratados, de acordo com as diretrizes vigentes.
Leishmaniose cutânea
Já a forma cutânea caracteriza-se principalmente por lesões na pele. Popularmente conhecida como “ferida brava”, aparece como uma pequena lesão no local da picada do mosquito.
O protozoário se multiplica dentro dos macrófagos na região afetada, causando inflamação e ferimentos persistentes.
É importante ressaltar que muitos cães podem ser infectados e permanecer assintomáticos. Segundo as diretrizes do grupo LeishVet, publicadas na revista Parasites & Vectors, até 60% dos cães infectados podem não demonstrar sinal clínico algum.
Mesmo assim, esses animais silenciosos contribuem para a manutenção do ciclo da doença no ambiente, reforçando a necessidade de testagens periódicas.
Os sinais que preocupam
A leishmaniose canina é uma condição traiçoeira, pois costuma ser silenciosa no início e seus sintomas são comuns a outras patologias.
Muitos animais são assintomáticos ou apresentam sinais clínicos bastante inespecíficos. Quando os sintomas surgem, eles se manifestam de forma lenta e progressiva, com uma variedade impressionante de quadros.
O período de início dos sintomas após a infecção varia de três meses a seis anos, o que torna o diagnóstico ainda mais desafiador.
Manifestações dermatológicas
Entre os principais sinais clínicos estão as manifestações dermatológicas, que podem incluir dermatites esfoliativa, ulcerativa, nodular, papular e pustular.
Em outras palavras, a pele do cão pode apresentar descamação intensa, feridas abertas, nódulos, pápulas e até lesões com pus. Além disso, é comum o engrossamento da pele e o surgimento de áreas sem pelo.
Outro sinal dermatológico clássico é a onicogrifose, que é o crescimento exagerado e deformado das unhas.
Lesões ulcerativas ou nodulares nas mucosas oral, genital e nasal também são frequentes, assim como a hiperqueratose nasal, que deixa o focinho seco e áspero. Portanto, qualquer alteração persistente na pele ou pelagem deve ser investigada.
Sintomas oculares e sistêmicos
As manifestações oculares incluem secreção e incômodo nos olhos. Podem surgir blefarites (inflamação das pálpebras), conjuntivite e até ceratoconjuntivite, comum ou seca, que compromete a córnea e a conjuntiva, podendo levar à perda da visão se não tratada.
Outros sinais sistêmicos incluem claudicação (por poliartrite erosiva ou não, osteomielite e polimiosite), miosite atrófica dos músculos mastigadores (dificultando a alimentação), vasculopatias (vasculite sistêmica e tromboembolismo arterial) e neuropatias que afetam o sistema nervoso central e/ou periférico.
Dessa forma, o cão pode mancar, sentir dores articulares, ter febre, letargia, perda de apetite e emagrecimento progressivo.
Em conclusão, a leishmaniose é uma doença multissistêmica que exige um olhar atento do tutor e do veterinário.
Esses sintomas avançam lentamente, mas podem causar a morte devido a casos de falência dos órgãos, anemia severa, entre outras complicações. Por isso, qualquer alteração persistente deve levar a uma consulta veterinária imediata.
Desafios no diagnóstico
Diagnosticar a leishmaniose canina é um grande desafio para o médico-veterinário, justamente porque os sintomas podem ser confundidos com os de outras doenças.
Além disso, a presença de cães assintomáticos ou com sinais inespecíficos exige uma investigação criteriosa. O profissional, portanto, recorre a uma combinação de exames laboratoriais para confirmar o caso.
Os exames disponíveis incluem testes sorológicos como ELISA, RIF (Reação de Imunofluorescência) e DATI, que detectam a presença de anticorpos contra o parasita.
Também se utiliza o PCR, que permite identificar o material genético do protozoário em amostras de sangue, medula óssea, pele ou linfonodos.
A pesquisa direta do parasita em lesões de pele, medula espinhal, fígado ou gânglios linfáticos é outra opção, e a escolha do método varia conforme a fase da doença e os sintomas apresentados.
Em muitos casos, uma bateria de exames é necessária para chegar a um diagnóstico definitivo. A fonte não detalhou a acurácia de cada teste, mas sabe-se que a combinação de técnicas aumenta a confiabilidade do resultado.
Tratamento e cuidados contínuos
Até alguns anos atrás, todos os cães diagnosticados com leishmaniose visceral eram submetidos à eutanásia, conforme protocolos de saúde pública.
Essa medida visava reduzir o reservatório urbano e interromper o ciclo de transmissão. No entanto, a partir de 2016, o cenário mudou com a liberação do tratamento à base de miltefosina.
Assim, a eutanásia deixou de ser obrigatória e os tutores ganharam uma alternativa para manter a qualidade de vida de seus animais.
O tratamento medicamentoso, contudo, não é curativo: a miltefosina, aliada ao alopurinol e à domperidona, auxilia na redução da carga parasitária no organismo, ameniza os sintomas e reduz o potencial de infecção do mosquito-palha.
Em outras palavras, o protozoário não é eliminado completamente, mas o cão deixa de ser uma fonte tão ativa de transmissão e pode viver com mais conforto.
É fundamental que o tutor entenda sua total responsabilidade: o tratamento é contínuo, exige visitas frequentes ao veterinário para acompanhamento e ajustes de dose.
Além disso, o uso de coleiras repelentes ou outros produtos recomendados pelo profissional é imprescindível para evitar as picadas do mosquito e, consequentemente, a transmissão da doença a outros animais e seres humanos.
Prevenção e saúde única
A prevenção da leishmaniose canina está diretamente ligada ao conceito de saúde única, que propõe uma visão integrada entre saúde animal, humana e ambiental. Orientar e educar a população sobre os riscos da doença é o primeiro passo para reduzir a incidência.
Medidas como evitar o acúmulo de matéria orgânica (folhas, frutos e fezes) nos quintais, onde o mosquito-palha se reproduz, e utilizar telas de malha fina nas casas podem diminuir a exposição ao vetor.
Para os cães, o método mais eficaz de prevenção é o uso de coleiras repelentes específicas, que agem contra o mosquito-palha, além de vacinas (quando disponíveis e recomendadas pelo veterinário).
A aplicação de pipetas ou sprays repelentes também pode ser indicada. É crucial que essas medidas sejam adotadas de forma contínua, pois a transmissão pode ocorrer o ano todo em regiões endêmicas.
Outra ação importante é a testagem periódica de cães assintomáticos, especialmente em áreas de risco, para identificar portadores e iniciar o manejo precocemente.
Vale lembrar que outros animais, como gatos, cavalos e roedores, podem ser infectados por Leishmania infantum ou outras espécies. Em gatos, por exemplo, a doença é mais rara que em cães e pode se manifestar em órgãos cutâneos ou viscerais. Portanto, a vigilância deve ser ampla.
Perguntas Frequentes
Como ocorre a transmissão da leishmaniose canina?
A transmissão ocorre exclusivamente pela picada da fêmea do mosquito-palha infectado. O ciclo começa quando o mosquito pica um cão infectado, ingere o parasita, que se multiplica no inseto, e depois é inoculado em outro animal ou humano na próxima picada.
Quais são as formas clínicas da leishmaniose canina?
Existem duas formas principais: a visceral, que afeta órgãos internos e pode ser fatal em até 90% dos casos não tratados, e a cutânea, caracterizada por lesões na pele, popularmente chamada de ‘ferida brava’. Cerca de 60% dos cães infectados podem permanecer assintomáticos.
Existe tratamento para leishmaniose canina? O cão precisa ser sacrificado?
Sim, desde 2016 há tratamento com medicamentos como miltefosina e alopurinol, que reduzem a carga parasitária e os sintomas, mas não eliminam o protozoário. A eutanásia não é obrigatória, mas o animal deve usar coleira repelente e ter acompanhamento veterinário para evitar a transmissão.
Conclusão
A leishmaniose canina é uma doença complexa, que exige conhecimento e responsabilidade por parte dos tutores. Embora não seja contagiosa, sua transmissão pelo mosquito-palha e o papel do cão como reservatório urbano tornam a prevenção um pilar central no controle da enfermidade.
Os sinais clínicos variados e muitas vezes silenciosos demandam um olhar atento e visitas veterinárias regulares.
Com os avanços no tratamento e a disponibilidade de medicamentos que controlam os sintomas e reduzem a carga parasitária, a eutanásia não é mais a única alternativa.
No entanto, o compromisso com o uso de repelentes e o acompanhamento veterinário contínuo são indispensáveis. Assim, proteger o cão é também proteger a família e a comunidade.
Em suma, informar-se e agir preventivamente são as melhores armas contra a leishmaniose canina. Ao menor sinal de suspeita, consulte um médico-veterinário e siga suas orientações com rigor.