
Cães demonstram comportamentos que indicam falta do tutor, mas não há consenso científico de que vivenciem ‘saudade’ como os humanos. Isso porque, apesar de os cães serem muito inteligentes, eles não são capazes de experienciar e expressar sentimentos sociais complexos. Mesmo assim, é possível dizer que um cachorro sente “saudade do dono” quando ele viaja ou sai por um período maior de tempo, apresentando sinais como queda de energia, desânimo e, em casos mais extremos, agitação e ansiedade.
Portanto, entender como os cães vivenciam a ausência do tutor é fundamental para garantir o bem-estar emocional do animal.
O que a ciência diz sobre o vínculo entre cães e tutores?
Cada vez mais a ciência vem mostrando que a relação dos cães com os responsáveis não é apenas de interesses, mas de laços afetivos e de confiança. Além disso, esses sentimentos tendem a crescer com o passar dos anos. É o que diz um estudo realizado no Japão e publicado na revista Science. O estudo, com 30 cães e seus tutores, mostrou aumento médio de 130% na ocitocina dos cães e 300% na dos tutores após troca de olhares.
Também chamada de hormônio do amor, a ocitocina é liberada durante trocas de afeto, em momentos de proximidade e de fortalecimento de vínculos emocionais. Ela é capaz de reduzir o estresse, além de aumentar a sensação de bem-estar. Dessa forma, o vínculo entre cão e tutor é biologicamente semelhante ao de mães e bebês humanos, o que explica por que a ausência pode ser tão sentida.
No entanto, é importante ressaltar que os cães vivem o presente de forma muito intensa. Eles não têm a mesma noção de passado e futuro que os humanos, o que influencia a forma como experienciam a falta do tutor. Assim, enquanto um humano pode antecipar a saudade antes mesmo da separação, o cão reage principalmente ao momento presente e à quebra da rotina.
Por exemplo, quando o tutor sai de casa, o cão percebe a mudança no ambiente, nos sons e na energia. A principal referência daquele animal simplesmente não está mais ali, e isso pode gerar desconforto. Contudo, muitos cães se adaptam rapidamente, especialmente se tiverem estímulos adequados. Ou seja, a saudade canina existe, mas se manifesta de maneiras diferentes da humana.

Como identificar se o cachorro está sentindo saudade ou ansiedade de separação?
Mesmo que a ciência ainda não tenha como determinar a forma como um cachorro sente saudade, existem diferentes tipos de demonstrações. Uma delas é um transtorno conhecido como ansiedade de separação, uma condição que afeta o bem-estar do cachorro e merece atenção. Segundo a veterinária e gerente técnica da Petz, Dra. Karina Mussolino, o caso de cães ansiosos ocorre principalmente quando os cachorros não estão acostumados a ficar sozinhos e não possuem estímulos mentais e físicos na rotina.
Com isso, eles acabam sofrendo toda vez que o responsável sai de casa.
Os sinais de saudade normal podem incluir queda de energia, desânimo e menor interesse em brincar. Já a ansiedade de separação se manifesta com comportamentos mais intensos, como latidos e uivos incessantes, automutilação ou lambedura compulsiva, comer apenas na presença do tutor, comportamentos repetitivos ou andar em círculos. Além disso, alguns pets recorrem à destruição de móveis e outros objetos da casa como forma de lidar com o desconforto emocional.
Para diferenciar os dois quadros, é essencial observar a intensidade e a duração dos comportamentos. Por exemplo, um cão que fica um pouco quieto nas primeiras horas após a saída do tutor, mas depois se distrai com brinquedos, provavelmente está apenas sentindo falta de forma saudável. Por outro lado, um cão que passa horas chorando, se lambendo compulsivamente ou destruindo objetos está demonstrando sofrimento significativo.
O ideal é monitorar a casa com câmeras e acompanhá-las algumas horas por dia. Caso não seja possível fazer o monitoramento por câmeras, uma dica é questionar os vizinhos sobre uivos e latidos. Além disso, você pode procurar sinais de lambedura nas patas e verificar se o pet se alimentou ou não. Portanto, a observação atenta é a chave para identificar se o comportamento é passageiro ou se requer intervenção.
O que fazer para minimizar o sofrimento do cachorro quando o tutor se ausenta?
Comece deixando o cão sozinho por 5 minutos e aumente gradualmente até 2 horas ao longo de 4 semanas, sempre com brinquedos recheáveis. Dessa forma, o animal aprende que a solidão não é algo negativo e desenvolve autonomia emocional. Para isso, é importante criar uma rotina saudável e ensinar o cachorro a tolerar períodos curtos sozinho, aumentando esse tempo gradualmente.
Uma das estratégias mais eficazes é o enriquecimento ambiental. Aposte em comedouros lentos, brinquedos recheáveis e comedouros interativos, que mantêm o pet entretido e mentalmente estimulado. Além disso, passeie todos os dias com o cachorro, de preferência no começo do dia — antes de você sair de casa. Um cão que gastou energia física e mental tende a ficar mais calmo durante a ausência.
Por mais que a vida esteja corrida, deixe o celular de lado e tire um momento do dia para se dedicar 100% ao pet, com brincadeiras e treinamentos. Essa interação fortalece o vínculo e ajuda o cão a se sentir seguro. Outra dica valiosa é deixar itens com seu cheiro, como cobertores ou roupas, à disposição do animal. Isso pode trazer conforto e reduzir a ansiedade.
Além disso, evite transformar sua saída ou chegada em um evento dramático. Despeça-se normalmente, como se fosse voltar em 30 minutos, e ao retornar, mantenha a calma. Isso ajuda o cão a entender que sua ausência faz parte da rotina. Por exemplo, se você costuma pegar a chave do carro ou calçar os sapatos antes de sair, faça esses gestos sem alarde, para não criar gatilhos de ansiedade.
Se você vai se ausentar por dias, algumas medidas podem ajudar o pet a se sentir seguro: mantenha a alimentação e rotina o mais parecidas possível, procure locais ou cuidadores que ofereçam atenção e estímulo, e peça atualizações durante a viagem, se isso te fizer sentir mais calmo. Em resumo, o objetivo é criar um ambiente previsível e enriquecedor, no qual o cão se sinta bem mesmo sem a presença física do tutor.

Quando procurar ajuda profissional para o comportamento do cão?
Caso suspeite de ansiedade de separação, leve o pet ao médico-veterinário o quanto antes. Na consulta, o profissional poderá orientá-lo, levando em conta o caso específico do seu cão. Jamais encare a ansiedade de separação como um sinal de amor. Na verdade, esse problema é um transtorno psíquico com enormes prejuízos para a saúde mental e física do animal.
Embora não se possa dizer que um cachorro morre de saudade, a ansiedade de separação traz sérios problemas à saúde do pet. O transtorno mantém o corpo do cão em estado de alerta constante, o que, com o tempo, pode levar a doenças cardíacas e imunológicas. Assim, com a dependência emocional em relação ao tutor, o cachorro pode desenvolver depressão, apresentando sintomas como perda de apetite, isolamento e agressividade repentina. Ao suspeitar de depressão ou ansiedade canina, procure um médico-veterinário.
O acompanhamento veterinário é importante para descartar qualquer tipo de doença prévia que possa levar a um quadro de estresse. O profissional pode pedir exames complementares. Se tudo estiver certo, uma possibilidade é que o veterinário indique sessões com o adestrador e, em casos mais graves, até prescrever medicações. Portanto, o tratamento deve ser individualizado e conduzido por especialistas.
Se você é responsável por um cachorro ansioso, tenha em mente que a melhora não acontece do dia para a noite. O tratamento pode ser demorado e deve ter a participação de todo mundo que convive com o animal. Além disso, é fundamental evitar broncas ou punições, pois isso só aumenta o estresse do cão. Em vez disso, reforce comportamentos calmos e ofereça alternativas de distração.
Um cachorro com saudade do responsável e sem ter o que fazer fica estressado. Para distraí-lo, deixe brinquedos interativos e recheáveis. Colocar uma roupa com seu cheiro à disposição dele também colabora com o bem-estar e ajuda nos casos de ansiedade de separação. Se o cachorro fica ansioso quando o “dono” sai, precisa ser condicionado a entender que ele volta e isso faz parte da rotina. Esse aprendizado pode ser feito com um adestrador profissional, caso você não tenha experiência no assunto.
Uma das formas mais comuns de obter sucesso no adestramento é perceber os gatilhos que levam o cachorro a ficar ansioso. Os mais frequentes são quando o responsável pega a chave do carro ou da casa ou calça os sapatos. O cão já pode sentir que vai ficar sozinho. Ao identificar esses gatilhos, é possível trabalhar a dessensibilização, expondo o cão a eles sem que a saída de fato ocorra, até que ele não reaja mais com ansiedade.
Se você, ao retornar ao lar, perceber tudo bagunçado e destruído, não adianta gritar com o cachorro ou repreender o animal de qualquer forma. Isso só vai deixá-lo mais estressado. Além disso, ele não vai associar a bronca com o que fez, já que estará muito animado com o seu retorno. Em vez disso, limpe a bagunça sem alarde e retome a rotina normalmente.
Em casos mais graves, o veterinário pode indicar medicação para controlar a ansiedade, sempre em conjunto com a terapia comportamental. O importante é não ignorar os sinais e buscar ajuda o quanto antes. Afinal, a ansiedade de separação não é frescura, mas um distúrbio que causa sofrimento real ao animal.
Perguntas Frequentes
Saudade normal inclui queda de energia e desânimo passageiros, enquanto ansiedade de separação envolve comportamentos intensos como latidos incessantes, automutilação e destruição de objetos. Observe a intensidade e duração dos sinais para diferenciar.
Ofereça enriquecimento ambiental com brinquedos recheáveis, mantenha rotina consistente, faça passeios diários e deixe itens com seu cheiro. Evite despedidas dramáticas e aumente gradualmente o tempo de ausência.
Não há evidência de que cachorro morra de saudade, mas a ansiedade de separação pode causar sérios problemas de saúde, como doenças cardíacas e imunológicas, devido ao estresse crônico. Procure ajuda veterinária se suspeitar do transtorno.
Conclusão
Entender que o cachorro sente saudade do dono é o primeiro passo para oferecer o suporte emocional necessário. A ciência comprova que o vínculo entre cães e tutores é profundo, mediado pela ocitocina, e que a ausência pode gerar desconforto. No entanto, é crucial diferenciar a saudade normal da ansiedade de separação, que é um transtorno sério e requer intervenção profissional.
Para minimizar o sofrimento do pet, invista em enriquecimento ambiental, mantenha uma rotina consistente, faça passeios diários e evite despedidas dramáticas. Se os sinais de ansiedade persistirem, procure um médico-veterinário ou um adestrador especializado. Com paciência e as estratégias certas, é possível ajudar seu cão a lidar melhor com a sua ausência e fortalecer ainda mais o vínculo entre vocês.